– Factotum –
"... Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte."
José Mário Branco, músico.
Estava a sonhar. Estava no campo a sonhar e Matilde estava com ele. Tinham brincado à apanhada a tarde toda. E depois tinham feito amor. Ali, no campo, longe de tudo que não fosse o seu amor e a vontade de se partilharem. Tinham feito o amor e depois tinham ido para dentro e ela fizera o jantar e antes de irem dormir ela dissera-lhe quando estavam quase a adormecer: amo-te.
Depois, o sonho mudou. Chovia, chovia a potes. As coisas não iam bem. Nem no trabalho, nem em casa. Matilde estava estranha ultimamente. Fria, distante e ele próprio andava irritadiço, andava com os nervos em franja por causa das dificuldades, por causa dos sacanas do emprego que lhe andavam a foder a vida e nada parecia resultar e depois… depois, sonhava, sonhava com outra vida e Matilde estava estranha, muito estranha.
Sonhava.
Discutiam e já não faziam amor. Ainda partilhavam a mesma casa, a mesma mesa e a mesma cama, mas já não faziam amor. Se não fosse o cão, Lucky, o cão que Matilde tinha ido buscar ao canil quando uma reportagem o levara para o estrangeiro durante meses a fio, já se teriam separado. Sim, Lucky, a quem ambos amavam, dormia agora junto a ele, quase sentia o pelo do cão, entre ele e Matilde, aquecendo-os aos dois e de uma maneira que o sonho não o esclarecia, mantendo-os juntos, mantendo ainda viva a pouca paixão que os abandonava a ambos, lentamente, como quem dorme num pesadelo acordado e não dá fé que a vida fugiu para longe e que tudo já não passa de um sonho e de que a vida, a vida, a vida é a feita de morte.
Sonhava.
Estava na Faculdade. Estava com os amigos. Tinham estudado arduamente nesse ano, o seu último ano de Faculdade. Tinha trabalhado tanto nesse ano. Tanto. E, como sempre, fora batido na recta final pelo seu melhor amigo. Tinha sido o segundo e dos segundos não reza a história. E o seu amigo que não trabalhava, o seu amigo que não precisava de trabalhar e que duma maneira que no sonho lhe parecia apenas aborrecida, acabava sempre por levar a melhor: o seu amigo era um falso. Sempre o tinha sido. Mas ele havia-lhe mostrado. Tinha-lhe mostrado a ele e a todos os outros.
Sonhava.
Estava na redacção do jornal. Na redacção de um jornal verdadeiro! A dar os primeiros passos. Tinha entrado com medo, a apalpar o terreno. Com medo. O telex debitava notícias e à sua volta parecia uma colmeia, toda a gente a correr de um lado para o outro. O chefe era feio, mas tinha personalidade, tinha carisma. Olhou-o de alto abaixo e só então lhe disse que se sentasse. Sentou-se.
- Quer ser jornalista?
- Claro que quero, tenho quatro anos de faculdade e média de 16, que acha que quero fazer?
- Filho, isso, aqui, não me diz nada. Médias e o caralho, meninos de coro, não nos dizem nada.
Estremeceu, o sonho já não parecia bonito. Mas não desviou o olhar do chefe. Tinha média e sabia que podia ser jornalista, que queria ser jornalista. O chefe olhou-o e, de repente, com um gesto brusco, abriu uma gaveta da secretária e tirou de lá algo que não se conseguia ver, de tão pequeno que era.
- Sabe o que é isto?
- Ora, deixe-me ver…
- Sabe o que é isto ou não sabe?
- Sim, sei, é um alfinete.
O chefe olhou para ele e sorriu. Sentiu-se mais à vontade. Não tinha compreendido, mas sentiu-se mais à vontade.
- Pegue no alfinete.
E o chefe passou-lhe o alfinete para a mão e ele, tentando ocultar a tremura da mão, agarrou-o com firmeza.
- Cheire-o, homem!
- Cheirá-lo?
- Sim, cheire-o!
E Miguel viu-se, nitidamente, no sonho, no gabinete envidraçado, com todos os outros jornalistas lá fora a observarem discretamente a cena, e ele a cheirar, a snifar um alfinete que não cheirava a nada.
- Pronto, já chega. Sabe o que é isto?
O chefe tinha-lhe posto à frente uma resma de papéis em branco, com as margens mais curtas, definidas por dois longos traços na vertical. Sim, sabia o que era aquilo. Apesar de na Fac já se usarem computadores, um dos professores - o de Imprensa Escrita - exigia sempre que entregassem os trabalhos dactilografados, e ai do aluno que os não entregasse em “linguados, em linguados!”, a gíria para as folhas nas quais os jornalistas de então escrevinhavam as notícias. Por isso, esboçou um sorriso, momentaneamente descontraído, e respondeu:
- São “linguados”, é uma resma de “linguados”, corrigiu.
O chefe, pela primeira vez, também sorriu, mas rapidamente a sua boca se fechou e o chefe assumiu outra vez aquele ar frio que o assustava.
- Pegue em cinco “linguados”, pegue em cinco “linguados”, vá sentar-se a uma secretária que esteja livre e tem duas horas para encher cinco “linguados” subordinados ao seguinte tema: “Um alfinete: causas e consequências”. Bom trabalho.
Sonhava.
Sonhava que as duas horas estavam quase a terminar e que ainda lhe faltava escrever o último “linguado”.
Estava outra vez em frente ao chefe e tremia. O chefe lia e de vez em quando tossicava. Quando chegou ao fim da leitura, tirou os óculos, pousou-os e fitou-o de novo. Sonhava que nunca tinha tido tanto medo. Os lábios do chefe abriram-se num sorriso, o chefe estendia-lhe a mão, o chefe dizia-lhe: volta amanhã, Miguel, estás contratado.
Sonhava.
Sonhava com a noite em que tinha conhecido Matilde. Tinha acabado de sair do hospital, onde lhe haviam composto a perna após uma reportagem numa zona de guerra. Tinha estado seis meses no hospital. A única coisa boa em que agora sonhava era nas enfermeiras, numa delas, doce, linda, bonita, que se chamava Domitília e que não voltara a ver e que não estava ali agora. E Matilde. A noite em que afastara para o lado os cabelos negros de Matilde e a beijara e tinham caído ao chão porque a sua perna ainda estava debilitada e tinham sorrido no chão e ela o tinha ajudado a erguer-se de novo.
Sonhava.
Sonhava que tinha sido despedido. Sonhava que chorava. Tinha sido chamado à administração da rádio. O maior chefe de todos queria falar com ele. Tinha ido feliz, julgando erroneamente que iria ser promovido. Ao invés, não foi o grande chefe que o recebeu. Foi a secretária. O pulha não tinha tido a coragem de lhe de dizer na cara. Tinha sido fodido por um colega e estava despedido: se quisesse fazer ondas, o seu futuro seria curto. Ainda tentou argumentar, falar com o grande chefe, mas de nada valia. Era o fim, o fim.
Sonhava e não queria mais sonhar, queria adormecer. Queria dormir de uma vez.
Mas, subitamente, acordou. Doía-lhe a cabeça. Estava deitado ao comprido no chão.
A cabeça doía-lhe. Tinha sangue no rosto. Deixou-se estar quieto. Passou-se uma eternidade. Muito lentamente, virou a cara. Olhou em frente, piscou os olhos, uma, duas e três vezes e quando a visão se tornou nítida viu uma bala semi-enterrada no chão. Uma bala. Tinham-lhe dado um tiro. Tinham-lhe dado um tiro na cabeça mas tinha sido de raspão. Teve vontade de adormecer. Estava fraco e estava quase a desistir. Quis mexer-se e não conseguiu. Estava fraco e algures por perto sentiu que alguém, alguma coisa má, muita má, o observava, o estudava.
Deixou-se estar quieto. Havia uma coisa à cintura que o incomodava. Ter-lhe-iam dado outro tiro? Não, era uma coisa que o magoava, mas não tinha sido um tiro. Era a pistola que tinha levado na noite anterior quando tinha ido ao seu trabalho sujo de chantagem – apenas e tão só por precaução e que trouxera consigo, sem saber bem porquê, quando Jorge lhe telefonara a pedir-lhe que fosse ter com ele. Lembrava-se. A pistola estava dentro do capacete e, ao sair de casa, ao pegar no capacete, vira a pistola e também pegara nela e prendera-a no cinto, puxando a camisa para baixo e agora doía-lhe.
Mexeu um dedo. Não estava morto, mas uma data de gente já estava e a noite começava a cair. Só se ouviam os grilos. Os grilos pareciam ser a sua única companhia, só que as aparências desiludem e havia algo no ar que não era bom, que era muito, muito mau. Se calhar até Jorge também já estava morto. Havia uma data de cadáveres. Mexeu outro dedo. Voltou a mexer a cabeça. Abriu os olhos. Um homem aproximava-se de si. Fechou os olhos. Abriu-os de novo, semi-cerrados, espiando o homem. Era um homem de pele cor de azeitona e de olhos azuis. Não sorria. Parecia aborrecido. O homem chegou perto, muito perto e Miguel fechou de novo os olhos.
Ouviu a voz do homem, em surdina, falando consigo próprio: “Caralho, Califa, só me faltava mesmo ter de esconder este presunto!” Lembrou-se de onde conhecia o homem. Recordou-se de tudo e deixou-se ficar quieto, a mão perto da cintura. O homem tocou-lhe. Tocou-lhe no tornozelo e parecia pretender arrastá-lo. Miguel tinha a mão na cintura e o seu coração batia em alvoroço. O homem arrastava-o. Sacou como se a sua vida dependesse disso e deu-lhe um tiro que acertou em cheio no meio dos olhos do homem.
José Mário Branco, músico.
Estava a sonhar. Estava no campo a sonhar e Matilde estava com ele. Tinham brincado à apanhada a tarde toda. E depois tinham feito amor. Ali, no campo, longe de tudo que não fosse o seu amor e a vontade de se partilharem. Tinham feito o amor e depois tinham ido para dentro e ela fizera o jantar e antes de irem dormir ela dissera-lhe quando estavam quase a adormecer: amo-te.
Depois, o sonho mudou. Chovia, chovia a potes. As coisas não iam bem. Nem no trabalho, nem em casa. Matilde estava estranha ultimamente. Fria, distante e ele próprio andava irritadiço, andava com os nervos em franja por causa das dificuldades, por causa dos sacanas do emprego que lhe andavam a foder a vida e nada parecia resultar e depois… depois, sonhava, sonhava com outra vida e Matilde estava estranha, muito estranha.
Sonhava.
Discutiam e já não faziam amor. Ainda partilhavam a mesma casa, a mesma mesa e a mesma cama, mas já não faziam amor. Se não fosse o cão, Lucky, o cão que Matilde tinha ido buscar ao canil quando uma reportagem o levara para o estrangeiro durante meses a fio, já se teriam separado. Sim, Lucky, a quem ambos amavam, dormia agora junto a ele, quase sentia o pelo do cão, entre ele e Matilde, aquecendo-os aos dois e de uma maneira que o sonho não o esclarecia, mantendo-os juntos, mantendo ainda viva a pouca paixão que os abandonava a ambos, lentamente, como quem dorme num pesadelo acordado e não dá fé que a vida fugiu para longe e que tudo já não passa de um sonho e de que a vida, a vida, a vida é a feita de morte.
Sonhava.
Estava na Faculdade. Estava com os amigos. Tinham estudado arduamente nesse ano, o seu último ano de Faculdade. Tinha trabalhado tanto nesse ano. Tanto. E, como sempre, fora batido na recta final pelo seu melhor amigo. Tinha sido o segundo e dos segundos não reza a história. E o seu amigo que não trabalhava, o seu amigo que não precisava de trabalhar e que duma maneira que no sonho lhe parecia apenas aborrecida, acabava sempre por levar a melhor: o seu amigo era um falso. Sempre o tinha sido. Mas ele havia-lhe mostrado. Tinha-lhe mostrado a ele e a todos os outros.
Sonhava.
Estava na redacção do jornal. Na redacção de um jornal verdadeiro! A dar os primeiros passos. Tinha entrado com medo, a apalpar o terreno. Com medo. O telex debitava notícias e à sua volta parecia uma colmeia, toda a gente a correr de um lado para o outro. O chefe era feio, mas tinha personalidade, tinha carisma. Olhou-o de alto abaixo e só então lhe disse que se sentasse. Sentou-se.
- Quer ser jornalista?
- Claro que quero, tenho quatro anos de faculdade e média de 16, que acha que quero fazer?
- Filho, isso, aqui, não me diz nada. Médias e o caralho, meninos de coro, não nos dizem nada.
Estremeceu, o sonho já não parecia bonito. Mas não desviou o olhar do chefe. Tinha média e sabia que podia ser jornalista, que queria ser jornalista. O chefe olhou-o e, de repente, com um gesto brusco, abriu uma gaveta da secretária e tirou de lá algo que não se conseguia ver, de tão pequeno que era.
- Sabe o que é isto?
- Ora, deixe-me ver…
- Sabe o que é isto ou não sabe?
- Sim, sei, é um alfinete.
O chefe olhou para ele e sorriu. Sentiu-se mais à vontade. Não tinha compreendido, mas sentiu-se mais à vontade.
- Pegue no alfinete.
E o chefe passou-lhe o alfinete para a mão e ele, tentando ocultar a tremura da mão, agarrou-o com firmeza.
- Cheire-o, homem!
- Cheirá-lo?
- Sim, cheire-o!
E Miguel viu-se, nitidamente, no sonho, no gabinete envidraçado, com todos os outros jornalistas lá fora a observarem discretamente a cena, e ele a cheirar, a snifar um alfinete que não cheirava a nada.
- Pronto, já chega. Sabe o que é isto?
O chefe tinha-lhe posto à frente uma resma de papéis em branco, com as margens mais curtas, definidas por dois longos traços na vertical. Sim, sabia o que era aquilo. Apesar de na Fac já se usarem computadores, um dos professores - o de Imprensa Escrita - exigia sempre que entregassem os trabalhos dactilografados, e ai do aluno que os não entregasse em “linguados, em linguados!”, a gíria para as folhas nas quais os jornalistas de então escrevinhavam as notícias. Por isso, esboçou um sorriso, momentaneamente descontraído, e respondeu:
- São “linguados”, é uma resma de “linguados”, corrigiu.
O chefe, pela primeira vez, também sorriu, mas rapidamente a sua boca se fechou e o chefe assumiu outra vez aquele ar frio que o assustava.
- Pegue em cinco “linguados”, pegue em cinco “linguados”, vá sentar-se a uma secretária que esteja livre e tem duas horas para encher cinco “linguados” subordinados ao seguinte tema: “Um alfinete: causas e consequências”. Bom trabalho.
Sonhava.
Sonhava que as duas horas estavam quase a terminar e que ainda lhe faltava escrever o último “linguado”.
Estava outra vez em frente ao chefe e tremia. O chefe lia e de vez em quando tossicava. Quando chegou ao fim da leitura, tirou os óculos, pousou-os e fitou-o de novo. Sonhava que nunca tinha tido tanto medo. Os lábios do chefe abriram-se num sorriso, o chefe estendia-lhe a mão, o chefe dizia-lhe: volta amanhã, Miguel, estás contratado.
Sonhava.
Sonhava com a noite em que tinha conhecido Matilde. Tinha acabado de sair do hospital, onde lhe haviam composto a perna após uma reportagem numa zona de guerra. Tinha estado seis meses no hospital. A única coisa boa em que agora sonhava era nas enfermeiras, numa delas, doce, linda, bonita, que se chamava Domitília e que não voltara a ver e que não estava ali agora. E Matilde. A noite em que afastara para o lado os cabelos negros de Matilde e a beijara e tinham caído ao chão porque a sua perna ainda estava debilitada e tinham sorrido no chão e ela o tinha ajudado a erguer-se de novo.
Sonhava.
Sonhava que tinha sido despedido. Sonhava que chorava. Tinha sido chamado à administração da rádio. O maior chefe de todos queria falar com ele. Tinha ido feliz, julgando erroneamente que iria ser promovido. Ao invés, não foi o grande chefe que o recebeu. Foi a secretária. O pulha não tinha tido a coragem de lhe de dizer na cara. Tinha sido fodido por um colega e estava despedido: se quisesse fazer ondas, o seu futuro seria curto. Ainda tentou argumentar, falar com o grande chefe, mas de nada valia. Era o fim, o fim.
Sonhava e não queria mais sonhar, queria adormecer. Queria dormir de uma vez.
Mas, subitamente, acordou. Doía-lhe a cabeça. Estava deitado ao comprido no chão.
A cabeça doía-lhe. Tinha sangue no rosto. Deixou-se estar quieto. Passou-se uma eternidade. Muito lentamente, virou a cara. Olhou em frente, piscou os olhos, uma, duas e três vezes e quando a visão se tornou nítida viu uma bala semi-enterrada no chão. Uma bala. Tinham-lhe dado um tiro. Tinham-lhe dado um tiro na cabeça mas tinha sido de raspão. Teve vontade de adormecer. Estava fraco e estava quase a desistir. Quis mexer-se e não conseguiu. Estava fraco e algures por perto sentiu que alguém, alguma coisa má, muita má, o observava, o estudava.
Deixou-se estar quieto. Havia uma coisa à cintura que o incomodava. Ter-lhe-iam dado outro tiro? Não, era uma coisa que o magoava, mas não tinha sido um tiro. Era a pistola que tinha levado na noite anterior quando tinha ido ao seu trabalho sujo de chantagem – apenas e tão só por precaução e que trouxera consigo, sem saber bem porquê, quando Jorge lhe telefonara a pedir-lhe que fosse ter com ele. Lembrava-se. A pistola estava dentro do capacete e, ao sair de casa, ao pegar no capacete, vira a pistola e também pegara nela e prendera-a no cinto, puxando a camisa para baixo e agora doía-lhe.
Mexeu um dedo. Não estava morto, mas uma data de gente já estava e a noite começava a cair. Só se ouviam os grilos. Os grilos pareciam ser a sua única companhia, só que as aparências desiludem e havia algo no ar que não era bom, que era muito, muito mau. Se calhar até Jorge também já estava morto. Havia uma data de cadáveres. Mexeu outro dedo. Voltou a mexer a cabeça. Abriu os olhos. Um homem aproximava-se de si. Fechou os olhos. Abriu-os de novo, semi-cerrados, espiando o homem. Era um homem de pele cor de azeitona e de olhos azuis. Não sorria. Parecia aborrecido. O homem chegou perto, muito perto e Miguel fechou de novo os olhos.
Ouviu a voz do homem, em surdina, falando consigo próprio: “Caralho, Califa, só me faltava mesmo ter de esconder este presunto!” Lembrou-se de onde conhecia o homem. Recordou-se de tudo e deixou-se ficar quieto, a mão perto da cintura. O homem tocou-lhe. Tocou-lhe no tornozelo e parecia pretender arrastá-lo. Miguel tinha a mão na cintura e o seu coração batia em alvoroço. O homem arrastava-o. Sacou como se a sua vida dependesse disso e deu-lhe um tiro que acertou em cheio no meio dos olhos do homem.
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