Em dez capítulos, a meio caminho entre o conto e a novela policial, uma história de crime, traição e paixões violentas. A ser actualizada, capítulo a capítulo, de oito em oito dias. As vossas críticas, sugestões ou meros comentários são bem vindos.
Wednesday
Capítulo VI
– Olívio –
"A verdade é que qualquer um mata, e esfola, seja cigano, seja negro, seja azul, amarelo, branco ou mesmo verde."
Autor anónimo.
Olívio saiu do hospital e dirigiu-se ao automóvel, um potente citroen XM preto que tinha deixado mal estacionado. Quando chegou ao carro estava uma multa no pára-brisas. Sorriu encantado, tirou a multa, rasgou-a em pedacinhos e deixou que o vento se encarregasse do resto. Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e fez-se à auto-estrada do Norte. Em hora e meia estaria em Castelo de Bode. Quando lá chegasse teria de ter cuidado para não ser visto pelo miúdo. Aquela história cada vez lhe agradava menos. Não tinha problemas nenhuns em ter despachado ainda na noite anterior três putas. Uma que engatara no Intendente, e outras duas no Caís do Sodré. A única que lhe custara um pouco fora a a última, chamava-se Telma e era bonita. Mas Olívio era um homem religioso e dizia sempre uma oração fúnebre pelas suas vítimas. Por outro lado, consolava-o o facto de que fossem putas e não mulheres sérias. Toda a gente sabia que as putas são a escória da terra, e que uma puta morta não faz falta a ninguém. Não era tê-las morto o que o incomodava. Era o que estavam a fazer ao miúdo: os choques sucessivos que lhe tinham preparado, com uma frieza que nem em África o capitão Califa tinha demonstrado. O automóvel corria velozmente pela A1. A mente de Olívio vogava agora no mar do passado.
Aos 17 anos cometera o maior erro que um cigano podia cometer: deitara-se na palha com uma rapariga de outro clã e por isso tivera de fugir. Jovem, irrequieto e com sede de aventura alistara-se nos Comandos. Esse fora o seu segundo maior erro de sempre. A guerra em África estava ao rubro e um cigano nos Comandos não tinha vida fácil. Era ainda pior do que ser um negro. Durante o curso de instrução na Metrópole comera o pão que o diabo amassara, mas fizera-se um homem forte, temido e inflexível. Superiores e camaradas, todos o tinham tratado com desprezo e violência. Durante um exercício, um filho da puta de um sargento de instrução dera-lhe mesmo um tiro a valer e a sorte foi que apenas lhe acertara de raspão. O sargento alegou desconhecer que a arma estava carregada e safara-se com uma mera reprimenda.
Todos se estavam a cagar para ciganos e o regime não queria chatices num momento em que a pressão política internacional se avolumava. Quando voltou de África, ainda mais endurecido pelos horrores da guerra, a primeira coisa que fez foi visitar o sargento e despachá-lo para o outro mundo. Fê-lo na sala de estar deste, em frente à mulher e ao filho, que não teria mais do que cinco anos. Não tinha sido muito diferente de África. Foi em África que finalmente o reconheceram por aquilo que era e foi em África que finalmente se sentiu em casa. Servira durante três comissões na Companhia do capitão Califa, em Moçambique.
Ao contrário de todos os outros oficiais que até então conhecera, Califa estava-se marimbando para a proveniência social, racial ou que quer que fosse dos homens sob o seu comando. A única coisa que lhe interessava era a eficácia destes em combate. O Capitão Braga Melo não era um homem como os outros e Olívio devia-lhe muito, para começar a sua própria vida. Na verdade, venerava Califa como a um pai, o qual aliás nunca conhecera. Califa preferia a companhia dos soldados à dos outros oficiais e adorava as acções no mato. Via-se que o combate lhe estava na massa do sangue. Mas era justo, e tratava os homens como filhos.
Tinha sido um sarilho daquela vez em Tete, bem pior do que Wiriamu, de que os idiotas dos jornalistas tanto barulho haviam feito. Foi em Tete que a Companhia caiu numa emboscada onde 15 homens morreram. Nesse dia, se não tivesse sido o capitão Califa, muitos mais lá teriam ficado, inclusive Olívio. Depois da matança os poucos sobreviventes tinham entrado na aldeia e descoberto um depósito de armas. Califa ordenou que abatessem todos os aldeãos e nenhum dos homens se recusou. Era justo, aqueles filhos da puta pretos estavam feitos com os guerrilheiros e não queriam perceber que tinham um sério défice de lealdade para quem estava ali para os proteger, os cobardes. Nunca ninguém chegou a saber de Tete nem nunca saberia. A maior parte dos homens da Companhia dormia para sempre em Moçambique. Que Olívio soubesse, só estavam vivos três: ele, Califa e o Ferro, um tipo catita que não gostava de falar de África e que agora explorava um bar perto da Fonte Luminosa.
Deixou a auto-estrada na saída de Torres Novas e pensou que estava já bem perto do objectivo. A casa de férias do miúdo. Teria ele encontrado os repolhos que lhe deixara na madrugada anterior? Realmente, aquela história cada vez lhe agradava menos. Porque é que Califa o incumbira desta missão, apesar de tudo, era uma coisa que lhe custava a engolir. O que não dava para estar agora no Bar do Ferro a beber copos e a brincar com a malta, a jogar às damas com aquele tipo giro, um protegido do Ferro, ai, como é que ele dizia que se chamava? Picasso, era isso. Que tipo giro, um gajo com estudos que preferia a companhia do Ferro e dele próprio a estar com senhores do seu nível.
Afastou de si esses pensamentos e concentrou-se na condução. A 6.35 no bolso incomodou-o, tirou-a, e com a mão livre colocou-a no porta-luvas.
Depois tinha vindo o 25 de Abril. A princípio não ligaram pevide. Revoluções e merdas do género eram tabu na Companhia de Califa. Os pacifistas e outros cabrões só valiam o preço de uma bala na nuca, e nada mais. A única coisa que importava era foder os sacanas dos guerrilheiros e o que se passava lá longe na Metrópole eram contas de outro rosário. Cedo se desenganaram. Aos 25 anos Olívio viu-se em Lisboa, desmobilizado, sem dinheiro, sem futuro, sem o cheiro do mato, sem o sol africano, sem negras.
A princípio metera-se no negócio do tabaco. Era fácil e mais do que dava para o gasto. Com o Ferro e uns pescadores da Comporta tinha feito muito dinheiro. A Guarda Fiscal chegava sempre atrasada. Mas depois foram traídos e numa tarde em que esperavam um carrego ao invés de tabaco levaram para dois anos à sombra. E podiam ter sido mais se não fosse Califa, que contratou advogado, mexeu cordelinhos e à saída tinha para ele um emprego de fachada, legítimo. Sim, devia muito a Califa.
Passou por Abrantes e virou para o Sardoal. Estava quase a chegar. Nos últimos 20 anos Califa tornara-se num poderoso e respeitável barão da indústria. Olívio fora o seu homem de mão para os inevitáveis trabalhinhos sujos. Tudo isso estava certo e não se arrependia de nada. Amolgar uns tipos para o hospital, dar uma carga de porrada a jornalistas estúpidos, que não percebiam nada de nada, tudo bem. Abater putas, porque não? Não faziam falta a ninguém, as cabras. Persuadir políticos nojentos a enfiarem a viola no saco, óptimo, sempre os odiara, pacifistas cobardes. Mas tratar assim o miúdo? Pôr-lhe à frente do nariz um pesadelo destes? Não, cada vez lhe agradava menos a sua missão e teve vontade de mandar tudo à merda e meter para Castelo Branco em direcção à fronteira. Contudo, não o fez. Califa podia estar a morrer e se calhar até estava doido, mas não o podia deixar ficar mal. Simplesmente, não podia.
Já mais devagar passou pelo Carvalhal, Fontes e Portela e meteu pelo caminho de terra batida. Tinha chegado. Estacionou o carro num valado discreto à sombra, sacou a 6 do porta-luvas, só para o caso, juntou-lhe o silenciador, saiu do carro e, como se estivesse no mato em África, foi fazendo a aproximação à casa. Estava muito calor. Lá em baixo a barragem era uma promessa de frescura líquida. Só se escutavam os grilos. Bonito. Até parecia o Tete, quando visitavam as negras.
De súbito, viu-os. Merda, o miúdo estava acompanhado. Sacou dos binóculos que também tinha trazido, hábitos velhos. Como ele próprio Um velho a brincar aos soldados, reflectiu apressadamente e assestou os binóculos no par que caminhava a uns bons 60 metros de si. O miúdo e um outro gajo aproximavam-se do jipe. Quem era aquele tipo? Tinha a impressão de que o conhecia, mas não sabia de onde. E agora? O que fazer? Sacou do telemóvel e discou um número.
– Boa tarde, hospital da CUF, em que posso ajudar?
– Quarto 66, se faz favor, diga que é Luís.
– Vou passar, aguarde um momento.
Voltou a olhar pelos binóculos. Lá em baixo os dois homens estavam agora virados para a traseira do jipe. Olívio não conseguiu conter uma risadinha e murmurou para si: nem sabem a surpresa que vos reservo, isso, abre a portinha, abre…
– Sim, fala!
Era a voz de Califa. Olívio baixou os binóculos. Mesmo sem estes podia ver bem o que se passava.
– Já cheguei. Ele está prestes a descobrir o segundo presunto.
– E está rijo, firme?
– Parece. Mas temos um problema.
– Um problema? Fala!
– Está outro tipo com ele, deve ser um amigo, tem mais ou menos a mesma idade dele…
– Quem? O quê?
– Espera um pouco, só um segundo.
Olívio voltou a pegar nos binóculos, à distância os dois homens tinham aberto a portinhola traseira do jipe. Ambos recuaram. O miúdo caiu no chão. O outro gajo vomitava, curvado, mesmo em frente dos olhos de Olívio. Baixou de novo os binóculos.
– Acabaram de descobrir o presunto. Está um tipo com o teu filho. Não sei quem é, deve ser amigo dele, está a vomitar, o que faço?
– Amigo? Amigo o caralho! Elimina-o, elimina-o já! O puto tem de aprender a safar-se sozinho, tem de aprender, tem de aprender… – A voz de Califa soava desesperada e de repente começou a tossir, a tossir…
– Eliminá-lo, assim? E o que faço ao terceiro presunto?
Califa demorou algum tempo a responder. Ainda tossia. Finalmente, recuperou e disse, num voz rouca e grave:
– Abate-o. O terceiro presunto logo se vê. Abate-o. Quero ver como é que o puto se safa dessa.
Lá longe, o miúdo tinha atirado com a portinhola do jipe com estrondo e o outro gajo, branco como a cal, parara de vomitar. Tinha-se afastado uns três metros e apoiava-se num murete. O miúdo pensava. Olívio percebeu isso imediatamente. O miúdo tinha sido rápido a recuperar, afinal, ainda havia esperança.
– Está certo. Ligo depois. O teu filho está a aguentar-se. Melhor que o outro, bem melhor.
– Eu sabia. Ainda vamos fazer dele um homem. Elimina o outro tipo. Já.
– Não estava combinado, Califa…
– Elimina-o, Cabo Antunes, elimina-o já!
Olívio desligou e sacou da pistola. Levou o seu tempo a apontar. Ainda bem que tinha trazido o silenciador. Agora calma, sobretudo, os dois estavam muito próximos. Não podia falhar e dar um tiro no miúdo. Afastavam-se do jipe e dirigiam-se para a entrada das traseiras da casa. Calma, calma, pensou. Olívio mirou as costas daquele homem, que lhe recordava alguma coisa ou alguém, embora não soubesse o quê, e, fazendo o indicador escorregar no gatilho, abriu fogo.
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1 comment:
Será que matou o próprio filho?
Muito forte, prendeu-me a atenção
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