Wednesday

Capítulo VII


– Redemption –


"Mais vale um pássaro na mão, do que um caralho no cu."

José Dias, médico.


Matar um homem com uma seis, a sessenta metros, quando este está em movimento, ainda que num passo lento, vagaroso, não é tarefa fácil. Se se juntar a isso o facto de a seis vir acompanhada de um silenciador, ainda se torna numa tarefa mais complicada. Contudo, se havia uma coisa na qual Olívio era especialista, essa coisa era matar pessoas, fosse em que circunstância fosse, com a arma que fosse, e à distância que tivesse de ser. A bala não falhou o alvo. Acertou na cabeça de Miguel, fê-lo rodopiar como se fosse uma marioneta e cair em cima do seu próprio focinho, no chão, inanimado.

Jorge caminhava à frente do amigo, um pouco à sua esquerda, e não se apercebeu de nada de início. Olívio largou a pistola, pegou nos binóculos de novo e espreitou. Tinha gotas de suor na testa, mas o seu espírito estava mais frio do que um congelador que servisse gelados no Pólo Norte. Conseguira de novo, abatera aquele tipo. Sorriu para si próprio e largou um suspiro de alívio, Califa ficaria contente. E, bem vistas as coisas, ainda bem que matara aquele idiota. Ao premir o gatilho, quase como se fosse uma revelação, finalmente percebera porque é que aquele parvalhão lhe parecia tão familiar. Para além de tudo o mais, recordava-se agora, o gajo era uma testemunha incómoda.

Era o tipo de quem uma das putas que despachara na noite anterior se despedira, à porta de um bar qualquer no Caís do Sodré. O cabrão. Merecia bem ter sido abatido como o bastardo que era, reflectiu. Porco de merda. Igualzinho aos sacanas dos terroristas do Tete que tinham vendido a Companhia e com isso cavado a sepultura de quinze camaradas que nunca mais voltaria a ver.

O miúdo virou-se para trás e finalmente compreendeu que algo estava errado com Miguel. Olívio arrumou os binóculos no estojo e pegou de novo no telemóvel. À distância viu o miúdo abrir e fechar a boca quase como se fosse um sapo a coxoar. Sentiu-se mal. Olívio gostava do miúdo. A mulher de Califa morrera no parto, uma morte estúpida para uma senhora tão senhora e Califa quase que matara a criança. De raiva. Se não tivesse sido Olívio, agora nenhum deles estaria ali, inclusive o repolho que acabara de despachar.

Jorge não tinha dito palavra desde que batera com a portinhola do jipe e apenas se encaminhara para a cozinha, porque, mais do que nunca, tinha necessidade de um copo. Quando sentiu atrás de si o ruído da queda de Miguel quase nem se apercebeu. Mas, sem saber porquê, virou-se para trás e viu que o amigo estava caído no chão. Gritou:

– Miguel, que se passa, que se passa?

Mas Miguel não lhe respondeu. Aproximou-se e verificou que um fio de sangue se escapava do couro cabeludo do amigo.

– Merda, Miguel?!? Miguel?!?

De novo Miguel não lhe respondeu. Ajoelhou-se, virou a cabeça do amigo para si e finalmente apercebeu-se de que algo de muito sério se tinha passado. Esbofeteou-o mas Miguel nada. Uma, duas, três vezes. Quando deu conta tinha sangue nas mãos, sangue que escorria da cabeça de Miguel para a testa e se espraiava entre os olhos até formar uma bolha esquisita no nariz abatatado do amigo. Quantas vezes não tinha gozado por causa daquele nariz, e quantas vezes Miguel não lhe tinha chamado a atenção para os seus pés, demasiado compridos. O sangue era quente e a pele de Miguel também. Nunca o tinha tocado assim, apesar de já se conhecerem há muito tempo. Na verdade, para além de lhe apertar a mão de vez em quando, nunca o tinha tocado. Jorge sentiu o estômago apertado e largou a cabeça do amigo.

Não conseguia entender o que se estava a passar. Depois de terem encontrado o corpo daquela mulher velha e feia no jipe não percebera nada. Miguel vomitara e agora sangrava e estava morto. Saltou para trás e a cabeça de Miguel, por falta de apoio, caiu no chão com um baque surdo.

Para um homem como Jorge nada daquilo fazia sentido. Já tinha tido sarilhos no passado, é certo, mas nada como aquilo. Retrocedeu dois passos e foi então que a viu. A bala passara pela cabeça de Miguel e fora alojar-se no asfalto, um metro à frente dele. Ainda deitava fumo e percebeu num instante que o seu amigo tinha sido baleado. Havia alguém que tinha disparado e matara o seu melhor amigo e se ainda não o matara a ele era porque de alguma maneira ainda não tinha tido oportunidade para isso. Havia ali mais alguém, provavelmente o culpado daquela merda toda não estava longe de si.

Instintivamente, baixou-se, depois saltou e desatou a correr para a segurança da porta da casa. Estava em pânico, a cada segundo esperava ser abatido como um cão, como Miguel o tinha sido. Mais um passo e entrou dentro da casa e atirou com o porta e saltou para trás do armário onde guardava os géneros alimentícios. A pulsação tinha-se-lhe disparado e suava abundantemente. Sem saber porquê lembrou-se do cadáver que ainda permanecia na banheira e começou a soluçar. Todos mortos, todos mortos, era só isso em que pensava. As lágrimas saltaram-se-lhe dos olhos. Miguel estava morto! O seu melhor amigo, o seu único amigo! Enxugou os olhos com a palma da mão e olhou para o relógio.

Seis da tarde. Tinha de se controlar, tinha de se controlar, havia alguém lá fora a matar toda a gente e se ainda não o tinha morto a ele só podia ser porque não tinha tido oportunidade para o fazer. Tinha de se controlar. Tinha de manter o sangue frio, o que faria Miguel na sua situação? Mas Miguel estava morto e ele sozinho. A janela da cozinha estava aberta e em cima da mesa o jarro com a mistela cura ressacas aquecia. Tinha de se controlar. Ouviu os grilos e então um tractor no caminho de terra batida. Sentiu vergonha de si, sentiu que Miguel não teria aprovado, sentiu que o seu pai não teria aprovado, sentiu que o amigo do pai que lhe comprava caramelos, quando era miúdo, se teria rido de tudo aquilo e lhe afagaria o cabelo, dizendo-lhe:

– Tú és filho de Califa, mas bem que podias ser filho de Olívio – antes de soltar uma daquelas gargalhadas, com os seus olhos azuis a faiscar, a sua pele ainda mais cor de azeitona do que realmente era, coisas que tanto o impressionavam quando era miúdo, que o intimidavam.

Isto é, antes de se fazer um homem e de o pai lhe ter deixado de falar, embora nunca lhe tivesse cortado a mesada nem todas as outras mordomias. O pai. Era essa a solução. Tinha de telefonar ao pai e pedir-lhe ajuda. Mas, e o outro lá fora, e o assassino que devia agora estar a rondar a casa? E todos aqueles cadáveres?

– Mãe, Mãe! – deu por si a dizer, a chamar pela mãe que nunca conhecera. Voltou a olhar o relógio. Estava aninhado atrás do armário há 45 minutos. Nada se tinha passado. Nada. Lá fora o sol tinha descido e faltariam mais uma, duas horas antes que fosse noite.

Pôs-se de cócoras. Lembrara-se de que o pai guardava um revólver, uma pistola Smith&Wesson calibre 32 na gaveta da cómoda do quarto onde ele nunca entrava. O quarto do pai. Tinha de ir buscar o revólver, primeiro. Verificar se estava carregado. Telefonar para o hospital. Explicar ao pai. Se ele não compreendesse, ou se não quisesse compreender, caçar o filho da puta que o perseguia e ver-se livre de todos aqueles corpos.

Não tinha muito tempo nem queria que o pesadelo em que se via se eternizasse. Lembrou-se de Miguel e a sua determinação fez-se ainda mais sólida. Era um homem com uma missão. Como é que ia explicar tudo aquilo à mulher de Miguel, à Matilde, não sabia. Como é que Miguel tinha arranjado uma mulher tão doce, inteligente, meiga, bonita, eis algo que nunca tinha compreendido.

Soltou uma gargalhada. O amigo estava morto. Talvez pudesse ocupar o seu lugar? Limpou os últimos vestígios de lágrimas do rosto. Um filho da puta qualquer estava a querer fodê-lo. Um sacana, como Miguel teria dito. Tinha de vingar Miguel. Sacudiu uma melena de cabelo e, ainda de cócoras, como um lobo, ou um leopardo, encaminhou-se silenciosamente em direcção ao quarto do pai.

Olívio observara-o quando o miúdo correra para a casa e batera com a porta. Sentiu pena, mas compreendeu: o miúdo não fizera a guerra em África, coitado, tudo aquilo lhe devia parecer estranho. Coitado do miúdo. Olívio amava-o. Sempre gostara dele. Não fez a chamada e esperou. De dentro da casa nem um ruído. Passou bastante tempo. O corpo do outro gajo continuava imóvel, na eira que dava para a porta das traseiras. Nada se passava a não ser o tempo. Finalmente, decidiu-se:

– Hospital da CUF, em que posso ajudá-lo?
– Quarto 66, se faz favor, é Luís.
– Um momento, vou passar.
– Sim? Fala!
– Califa, está feito, como tu querias.
– Óptimo e…. O rapaz? – Olívio julgou perceber na voz rouca de Califa um afeição, um carinho que era estranho; que não iam bem com o patrão. Em definitivo, Califa tinha mudado com a doença, tinha mudado mesmo.

– Está na casa, não sei o que está a fazer, mas não há sinal dele.
– Óptimo, ahahah, ahahah, – E o riso demente de Califa foi acometido por um ataque de tosse que se prolongou na linha telefónica.

Finalmente, ouviu o patrão escarrar, o que o fez sorrir porque se lembrava que Califa gostava imenso de escarrar para o chão quando estava dentro de casa e lentamente a respiração deste último fez-se silenciosa.

– E agora? O que faço?
– Agora? Agora vais mostrar ao puto como a vida é…
– O que faço, Califa?..
– Vais fazer assim… Se conheço o meu filho, deve estar quase a ligar aqui para o hospital… O outro tipo, está mesmo presunto?
– Sim Califa.
– O que vais fazer é isto: vais lá sem que o rapaz te veja, pegas no presunto e vais escondê-lo. Percebeste?..
– Percebi Califa, percebi.
– Liga-me depois, Ahahah! Ahahah! – E Califa desligou.

Olívio guardou no bolso do casaco o telefone, ergueu-se, foi-se aproximando da eira. Era quase noite. Estava a pé há tantas horas que quase já só agia como se fosse um autómato. Estava farto daquela história. O que mais teria Califa na manga? E o miúdo? Como se estaria a aguentar? Fosse como fosse, só os grilos lhe faziam companhia, do miúdo nem sombra. Só os grilos e a barragem, o imenso lafo verde lá ao fundo. Já nem lhe apetecia ir refrescar-se nela. Só queria ir-se embora e dormir. Ainda por cima, tinha de ir esconder aquele otário amante de putas que tinha abatido há pouco, embora lhe parecesse como se tivesse sido na noite anterior. Estava farto de matar pessoas. Nunca mais mataria. Nem mesmo se fosse uma ordem de Califa, nunca mais.

Aproximou-se do corpo. Ia ter de o arrastar. Puxou-o por um pé. Foi o seu último gesto. Antes de cair no chão, já Olívio finalmente se encontrava com o Criador de tudo e estava morto.

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