Em dez capítulos, a meio caminho entre o conto e a novela policial, uma história de crime, traição e paixões violentas. A ser actualizada, capítulo a capítulo, de oito em oito dias. As vossas críticas, sugestões ou meros comentários são bem vindos.
Wednesday
Capítulo IX
- Dr. Braga Melo -
"Se a tua dor te aflige, faz dela um poema".
Eça de Queiroz, escritor.
Estava só e não havia nada nem ninguém que o pudessem ajudar, excepto, talvez, o pai. Miguel estava morto lá fora e lá fora andava a morte. Andava uma pessoa ou mais do que uma a matar gente, como se isso fosse tão natural como ir ali à videira da eira sacar um cacho de uvas. Era isso mesmo o que estava a acontecer e Jorge tinha de resolver o que fazer sobre o assunto.
Tinha de ir ao quarto do pai. Tinha de ir buscar o revólver que o pai guardava no quarto e estava cheio de medo e estava de gatas. Mexia-se, lentamente, em direcção ao quarto do pai. A porta estava trancada, mas ele tinha a chave, sempre a tivera e sabia onde ela estava, na mesinha de cabeceira do seu próprio quarto. O quarto onde o pai também nunca entrava.
Retrocedeu e, sentindo-se um pouco mais confiante, entrou no seu quarto, foi até onde a chave estava, abriu a gaveta e soltou um suspiro de alívio. A chave permanecia no sítio onde a tinha guardado, quando, há mais de dois anos atrás, num assomo de coragem, mandara fazer uma cópia e finalmente se deliciara com o toque frio, negro, escuro, da Smith & Wesson do pai, aquela arma que era o revólver que já tinha morto pessoas, em África, onde o pai tinha feito guerra antes de aumentar exponencialmente a fortuna da família, apesar de o pai ter sido sempre rispidamente evasivo acerca do assunto: acerca dos assuntos da guerra e dos assuntos do dinheiro. Aliás, o pai sempre tinha sido ríspido e evasivo - ponderou.
Estava toda a gente a morrer à sua volta. Era um pesadelo. Tinha acordado ressacado, mas bem disposto, e depois encontrara o cadáver duma mulher a boiar na banheira do quarto de banho. Sentira-se muito só e ligara a Miguel. Miguel viera e supostamente Miguel iria safá-lo daquela enrascada. Mas Miguel já não era vivo. Até Miguel. O puto. O seu melhor amigo.
Recordou-se do dia em que se haviam conhecido e sorriu. Miguel era tão miúdo, tão idealista nessa altura! Órfão de pai - o pai dele tinha sido brutalmente assassinado à frente dele e da mãe, uma coisa de que não gostava de falar - Miguel era por um lado o irmão que nunca tinha tido e por outro um tipo bem mais calmo do que ele e que tinha o condão de o acalmar a si próprio. Mas disso já não se lembrou. Fervia.
Só se recordava de que Miguel era um miúdo catita e de que desde logo simpatizara com ele. Miguel. Miguel estava lá fora e não tinha uma sepultura. Tinha as moscas – reflectiu - disso, das moscas a morder o corpo do amigo, estava certo: em Castelo de Bode, no Verão, as moscas não deixariam passar impune um pratinho delicioso como era o cadáver de Miguel. Sim, as moscas deveriam neste preciso momento estar a fazer um banquete e a chamar os amigos. Até o casal de milhafres de que tanto gostava deveria naquele momento estar a observar lá do alto o cadáver de Miguel.
E tudo por culpa de alguém que nada respeitava e que matava pessoas, como se matar pessoas fosse a coisa mais natural deste mundo. Tossiu e quase vomitou. Precisava de uma bebida. Precisava de se recompor. Nada fazia sentido. A única coisa que fazia sentido era ir buscar a fusca do pai, telefonar-lhe para que este mandasse vir apoio e resolvesse tudo e, quem sabe, no processo que inevitavelmente aí conduziria, sozinho, mostrar ao pai que era um tipo como deve ser, um homem com H grande, abatendo o filho da puta que tinha morto Miguel.
Sentiu-se revigorado. Fervia cada vez mais, mas as mãos já não lhe tremiam. “Bora vingar-te Miguel, bora lá tratar do filho da puta que te matou”, disse, em surdina e, como um leopardo, lá se foi se aproximando de novo da porta que dava para o quarto do pai.
A chave rodou na fechadura e a porta abriu-se. Teve medo. Há mais de dois anos que não entrava naquele quarto. A porta abriu-se e guinchou agudamente e ele enervou-se com o barulho. Saltou para trás e foi a correr até à cozinha.
Estacou em frente ao armário das bebidas e recuperou o fôlego. Espreitou pelo óculo da porta que dava para a eira. O que viu não o agradou. Tinha de tomar um copo. Com uma mão trémula, abriu o armário das bebidas e sacou uma garrafa. Tirou os olhos do óculo da porta e olhou para a garrafa. Era uma garrafa de Gin. Não importava. Desarrolhou-a e deu um grande golo. A quente.
Satisfeito, recomposto, pousou a garrafa e voltou a olhar pelo óculo da porta. Lá estava o que não tinha gostado de ver: Miguel continuava estendido ao comprido. Morto. “Vou vingar-te, Miguel, vou vingar-te, e vou amar a Matilde por ti, é isso o que vou fazer e o meu pai também me vai amar a mim e até a ti e…” desatou à gargalhada, como um louco, um demente que já não sabe nem onde está nem o que faz ou sequer o que pensa.
Por fim, acalmou-se. Reparou que já não estava de gatas. Pensou em dar mais uma golada na garrafa de Gin, só para ganhar forças, mas sentiu que já não precisava de álcool para isso. Estava calor, precisava da cabeça lúcida e fria e lá fora deveria estar um cabrão com uma arma à espera dele. Um, ou até mais do que um. Porque diabos não haviam ainda vindo atrás dele?
Então, com o passo seguro, caminhou em direcção ao quarto do pai, entrou em silêncio, foi direito à cómoda, abriu a gaveta de cima com um gesto rápido e sorriu: A Smith & Wesson, no seu invólucro oleado, repousava no mesmo sítio onde a tocara da última vez. Abriu o tambor: a arma estava carregada.
“Vamos caçar, Jorge, vamos caçar!” murmurou, e estava quase a sair do quarto do pai quando se lembrou de que ainda não tinha resolvido o mais difícil. Ainda não tinha contado ao pai a merda toda que se estava a passar. E se pudesse resolver o assunto sem a ajuda dele? Sem a ajuda do Dr. Braga Melo, o seu pai?
Não, de facto não podia. Era demasiada areia para a sua camioneta. Poisou a fusca em cima da mesa-de-cabeceira, sentou-se em cima da cama e levantou o auscultador do telefone. Estava a funcionar. Teve outra vez medo, virou-se para trás e colocou-se à escuta. Nada. Não se ouvia nada. Nem sequer um grilo. A casa era tão isolada que ali o tempo parecia não ter qualquer significado; era quase como se o tempo não passasse em Castelo de Bode.
A única referência que lhe permitia estabelecer que não, que o tempo passava ali, era que o Sol nascia, subia, descia e morria todas as noites. De resto, era o isolamento total. O quarto, só com a fresta de uma janela de guilhotina aberta estava na penumbra. Foi espreitar pela fresta. Era quase noite. Recuou e pensou ligar uma luz, mas, por motivos que lhe pareceram óbvios abandonou a ideia.
Que horas seriam? Tinha telefonado a Miguel às três da tarde. Consultou o relógio de pulso. 10 para as 10. Haviam passado oito horas desde que encontrara o corpo da mulher que ainda estava a boiar na casa de banho. Tinha mesmo de telefonar ao pai. A situação era insustentável. Mas, por outro lado, nada balia, não se ouvia um único som.
Talvez até que o assassino que andava por ali a matar mulheres e que depois também matara Miguel se tivesse ido embora? Não, não se tinha ido embora. O cabrão não devia de estar longe, era quase noite, mas o cabrão não devia de estar longe e tinha de ligar ao pai, o pai haveria de arranjar maneira de resolver toda aquela situação estúpida, da qual não percebia patavina, o pai haveria de saber o que era melhor, o pai haveria de saber o que tinha de ser feito. O pai sabia tudo sobre tudo e sobre toda a gente.
Discou um número.
- Hospital da CUF, em que posso ser útil?
- Quarto 66, por favor, é o filho do Dr. Braga Melo.
- Um momento, vou passar.
O tempo passou. Um, dois, três, quatro cliques. Finalmente, reconheceu a voz do pai. Notava-se que estava debilitada, fraca, mas não tinha perdido a ironia, aquela subtil ironia que sempre o mortificara.
- És tu, rapaz?..
- Sou eu pai. Estou com um problema.
- Estás com um problema? Ahahah!..
E o riso demente de Califa feriu-lhe os tímpanos. Por fim, o pai começou a tossir, a tossir a tossir.
- Pai? Pai?!?
Fez-se silêncio na linha. Finalmente, Califa pigarreou e voltou a falar:
- Diz lá, filho meu, qual é o teu problema?
A voz do pai estava fria, fria como a noite escura que se abatia sobre Castelo de Bode. Jorge olhou de novo para o relógio e rápido e preciso como o pai sempre o instara a ser, despejou tudo.
- Pai, hoje de manhã acordei e estava uma gaja morta na casa de banho. Depois estava outra morta no jipe e depois um amigo meu.
- Um amigo? Que amigo? Tu não tens amigos. Ninguém tem amigos!
A voz de Califa, aguda e débil, parecia o guinchar do animal que o pai uma vez captura numa armadilha e que tortura à sua frente, com um sorriso, ao mesmo tempo que lhe dizia que ele tinha de aprender a ser um homem. Essa fora a última vez que tratara o pai por “papá” e fora para lhe implorar que parasse: “Pára, papá, pára!” O pai, parara, isto é, acabara com a agonia do animal num segundo antes de lhe ordenar secamente que fosse para o seu quarto, estava de castigo.
- Então, o gato comeu-te a língua? – A voz de Califa, apesar de débil e esganiçada não perdera a agressividade, mas, apesar disso, já não lhe instilava o terror de outros tempos.
- Pois não pai, não tenho amigos, o único que tinha veio cá ter e levou um tiro e é por isto tudo que te estou a telefonar, papá.
Califa tossiu, tossiu, tossiu e depois escarrou. E escarrou de novo e tossiu de novo. Jorge esperava. O pai disse:
- Não há dúvida, filho meu, estás realmente na merda… O que é que queres que eu faça sobre isso?..
Pela primeira vez, ténue, vaga e imprecisa, uma dúvida, uma suspeita, assolou a mente de Jorge. Afastou-a. Não, não podia ser. O pai não podia ter nada a ver com tudo aquilo.
- Pai, quem matou esta gente toda ainda deve andar por aí. Eu posso ficar aqui no teu quarto e faço uma barricada e tu podes mandar vir gente. Podes mandar vir aquele teu amigo, como é que ele se chama, sim, manda vir o Olívio e mais alguém para resolver isto tudo. Por favor, papá.
- Quem? O Olívio, o Olívio?!? Ahahah! Ahahah! Ahahah!
Califa ria tresloucado, ria e ria e Jorge sofria, a suspeita que se formara no seu cérebro impunha-se com uma nitidez cada vez maior: o pai tinha algo a ver com a catástrofe! O pai estava a jogar poker consigo!
- Ahahah! Ahahah! Ah!...... Ahhhh…
- Pai, pai?!?
O pai soltou um uivo tremendo que o arrepiou até à medula. O grito do pai não era humano, mas mesmo assim não afastou o telefone de si. Ouviu um estertor. Depois, o ruído do telefone do pai a cair ao chão. Sentiu passos do lado de lá; uma voz feminina que gritava: “Dr. Braga Melo, Dr. Braga Melo!” Mais passos, estes últimos pesados e seguros. Uma voz masculina: “Não há nada a fazer a não ser contactar a família, enfermeira Domitília, nada mais do que isso.”
Pressentiu mais do que ouviu que alguém chorava do outro lado da linha. Pousou o auscultador. Não chorou nem os seus lábios se mexeram.
Deitou-se na cama. Aos poucos foi percebendo tudo. Não passava de um teste. Macabro, mas de qualquer maneira não tinha passado de um teste. O pai tinha sido o responsável por tudo, até pela morte de Miguel. Muito provavelmente, teria sido o homem de confiança do pai, aquele cigano esquisito e perigoso quem tratara de tudo. Por isso, ainda estava vivo e ninguém o fora incomodar. Um teste, nada mais do que um teste.
Ergueu-se. Não tremia, nem suava. Sentiu-se mudado. O pai também estava morto. Ia receber uma herança substancial. Iam passar a tratá-lo por Dr. Braga Melo.
Mas tinha de fazer as coisas como era suposto que as fizesse. Em primeiro lugar, havia de ocultar aqueles corpos todos. Em breve, viriam à sua procura. Dar-lhe a notícia do falecimento. Não lhes seria fácil chegarem até à sua presente localização. Possuía algumas horas para limpar aquela merda toda. Iam todos para o fundo da barragem, conforme combinara à tarde com Miguel.
Miguel, até Miguel ia para o fundo da barragem. Metê-los todos no jipe, pôr o jipe a trabalhar, levá-los até ao barco e deitá-los com um peso bom ao fundo. Sim, iam todos para o fundo e ele ia ter todo o dinheiro do Mundo para gastar. O pensamento excitava-o e, na excitação que sentia uns olhos, um perfil, uns cabelos insinuaram-se na sua mente. Os olhos, os lábios e o cabelo de Matilde – a viúva de Miguel.
Não iria ser tarefa fácil. Mas, estava seguro, antes do raiar do dia seguinte, antes de os outros chegarem até ele com a maravilhosa notícia da morte do pai já tudo estaria tratado. Tudo não, mas o principal.
Ergueu-se. Abriu uma gaveta e quase a arrancou do móvel. Abriu a segunda e encontrou o que procurava. Pegou em três enormes toalhões, pôs a fusca do pai à cintura e avançou para o quarto de banho. Então, quando estava quase a entrar, ouviu o som de um disparo lá fora.
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2 comments:
E agora?????????????
E agora????????????
Isto faz-se?
Deixar uma pessoa sem saber o final?????
Cruel!
:)
Parabéns!
Beijinho!
Este não é o último capítulo, pois não?
O que aconteceu depois?
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