Wednesday

Capítulo I


– Jorge –


"L'air est plein du frisson des choses qui s'enfuient."

Charles Baudelaire, poeta.


Assim era sempre desde que se lembrava nas manhãs de sábado, todos os verões. Irremediavelmente, um despertar penoso, ácido, como quem sai do fundo de um túnel e só encontra nuvens negras, pesadas. O sol, implacável, apenas piorava as coisas.

Com a cabeça mergulhada num denso caldo de pesadelos cortantes, Jorge ergueu-se, lentamente, calçou as sandálias, vestiu a camisa, e, como se a sua vida dependesse disso, inseguro, caminhou até à cozinha.

A receita usual, meio litro de água fresca, três medidas de sumo de pêssego, duas colheres de sopa de mel, seis cubos de gelo e uma medida e meia de aguardente velha, desta feita, não parecia surtir o menor efeito.

Sentou-se à mesa a sorver, pausadamente, o bizarro cocktail.

Indolente, levantou-se, abriu a janela da varanda e pôs-se a apreciar a paisagem enquanto espairecia ao sol. Acendeu um cigarro e, quase de imediato, sentiu-se rejuvenescido.

De forma compassada exalou uns quantos anéis de fumo, como um actor a representar para uma plateia invisível, à la Corto Maltese. Depois foi sentar-se na rede que o seu pai trouxera fazia muitos anos do Brasil e achou a paisagem, com os seus montes, casas dispersas, penedos, riachos, subtilezas da mente, agradavelmente preguiçosa.

Fazia uma bonita tarde de Verão e a casa de férias estava silenciosa. Só um ou outro grilo, no arvoredo, quebrava a atmosfera solarenga. Lá longe, o grande espelho líquido da albufeira parecia também ele ainda meio adormecido.

Voltou à cozinha e serviu-se, generoso, de mais um copo da mistela.

Vagamente, recordou-se, como quem prescruta um passado distante, da noite anterior. Dançara com uma, duas ou várias mulheres. Beijara pelo menos uma. Bonita, por sinal. E bebera, bebera.

Muito mais tarde conduzira de Lisboa até à casa de férias na aldeia. Também disso se recordava. Tudo correra de acordo com o figurino a que finalmente se habituara após uns longos vinte anos recheados de inúmeras farras e bebedeiras – sem incidentes.

Concentrou-se, tentando formar um quadro mais preciso de todos os acontecimentos da noite anterior mas, impaciente com o esforço, abandonou provisoriamente a ideia e, com a segurança de um gesto estudado, atirou o resto da mistela para o ar, seguro de que não iria aterrar em nenhuma janela.

Exuberante, ergueu-se, satisfeito consigo próprio. Tinha 37 anos e todo o resto da vida à sua frente. O dinheiro, graças às três gerações de homens empreendedores e inteligentes que o haviam precedido não era um problema e até então a saúde não o maçara em demasia. Mulheres tivera algumas, uma em particular de quem se livrara a tempo e sentia-se tão livre como um pássaro. Ou melhor, como um falcão, um predador.

Então, recomposto, espreguiçou-se, sorriu satisfeito e encaminhou-se, passo estugado, em direcção ao quarto de banho. Cobriu o rosto de espuma, abriu a torneira da água quente, deixou que se formasse uma nuvem de vapor e humedeceu o fio da navalha na água morna enquanto se avaliava ao espelho.

Não foi a testa, ainda amarelada, olheiras negras, a barba por fazer, rugas vincadas, reflectida no espelho, olhos raiados de sangue, que o assustou.

Num esgar que reprimiu, horrorizado, acabara de reparar que, reflectido no espelho, num ângulo que raramente verificava, estava um corpo a boiar na banheira.

Um corpo de mulher, loira, unhas dos pés pintadas de preto, a boiar num lago encarnado. O rosto não apresentava qualquer expressão apesar dos olhos estarem bem abertos. Reparou nos pés porque eram muito belos e como era alta erguiam-se acima do nível da pôça encarnada.

A navalha da barba fez "plop" ao cair na água que se acumulara no lavatório.

Assustado, fechou os olhos, retrocedeu um passo, e contou, muito devagar, até quinze. Não podia ainda compreender bem o que vira. Teria sido uma mera alucinação; coisa pouco habitual, embora possível? Não era a primeira vez que julgara ver coisas na sequência duma das suas intermináveis sessões de copos e drogas.

E, embora bebesse com cada vez menor frequência e tivesse abdicado por completo das drogas, a noite anterior fora forte, bastante forte.

Decididamente, ponderou, ainda de olhos cerrados, não era este o fim que tivera em vista, seriam umas seis da tarde do dia anterior, quando, enfadado com a monotonia de mais uma sexta-feira igual a todas os outras, resolvera dar um exemplo de prodigalidade à sua própria pessoa e se sentara, nababo, a uma mesa discreta na sala de jantar do Hotel Ritz.

Manteve os olhos fechados durante o que lhe pareceu uma eternidade. A torneira, a da cozinha, pingava água. Não se ouvia mais nada, excepto o barulho ocasional do motor de um tractor, lá fora no caminho.

Um perfume demasiado quente, amargo embora estranhamente doce, impregnava subtilmente a atmosfera que respirava. A aldeia estava calma, acudiu-lhe, demasiado calma, até mesmo para um sábado.

Quando abriu de novo os olhos, a realidade não lhe deixou quaisquer margens para dúvidas.

Jorge não acreditava em Deus, do mesmo modo que não acreditava em milagres. Virou-se, avançou calmamente para a banheira e verificou, com as próprias mãos, que era mesmo verdade.

Estava uma mulher morta a boiar ali. Fugir, foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, mas uma súbita pontada lancinante, ou uma força sobrenatural, que nunca julgara possuir, impediu-o de esboçar movimento que fosse. Ficou a olhar para o corpo e achar que tudo aquilo era muito estranho. A mulher teria uns cinquenta anos, estava morta e não era um pesadelo. Mas como teria ido parar justamente à sua banheira?

Sentiu uma convulsão no estômago, virou-se e vomitou os restos da receita para a sanita, de um só jacto. Ainda não estava em si.

Enxugou-se, saiu do quarto de banho e dirigiu-se à cozinha. De passagem reparou que no relógio da mesa de cabeceira eram apenas três da tarde.

2 comments:

Pedro said...

Tens de ler o Poe antes de ires por este estilo. E falta harmonia na ligação das palavras.

Lúcio Ferro said...

Só agora li o teu comentário, este trabalho é antigo (2006, salvo erro), nunca foi revisto, porventura daí a falta de "harmonia" de ligação entre palavras. Claro que, entretanto, tive a oportunidade de ler o Edgar, bem como outros de mistério e crime e um dia, com toda a certeza, voltarei a "isto", a la dinis machado, quem sabe. De qualquer modo, obrigado pelo heads up, é sempre bom encontrar alguém que goste não só de ler mas igualmente de escrever.