Wednesday

Capítulo II


– Miguel


"It was a wrong number that started it, the telephone ringing three times in the dead of night, and the voice on the other end asking for someone he was not."

Paul Auster, escritor.


Estremunhado, Miguel estendeu o braço com o desejo de afagar o dorso de Lucky. Tacteou em volta, buscando uma perna, mas o cão não estava onde era suposto encontrar-se.

Abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi a reprodução de Monet que Matilde lhe oferecera no último Natal. Sacudiu a cabeça, piscou os olhos, uma, duas vezes, sentiu que já não estava a sonhar e afastou o lençol com um gesto enjoado.

O cão não estava na cama e apercebeu-se então de que não estava nem voltaria a estar tão cedo, se é que alguma vez sentiria de novo junto ao seu corpo o calor do pêlo lustroso de Lucky. O cão dela.

Estou fodido, murmurou. Foi despertando aos poucos. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e contemplou cinicamente a pilha de louça que se havia acumulado nos últimos três ou quatro dias. Tinha de tratar disso. Escancarou a porta do frigorifico e serviu-se generosamente do pacote de leite.

Saciado, abriu a torneira da água fria, humedeceu a esponja da loiça com detergente suficiente para alimentar uma família de negros em África e atacou o primeiro prato.

Desde que perdera o lugar no jornal a vida parecia caminhar a passos seguros para o desastre. Estou fodido, proferiu, desta vez em voz alta. A meio caminho da tarefa a que se lançara num gesto de desespero viu-se cansado e fechou a torneira.

Do mal o menos, os copos de whisky estavam lavados, bem como os pratos e os talheres.

Abriu a janela da marquise e verificou que fazia um bonito dia de Verão. Que dia seria, isso não sabia. Era Julho e na véspera, sexta-feira, fiz um trabalho de merda, murmurou com uma voz que lhe foi difícil reconhecer.

Os fins de semana eram sempre muito mais complicados de ultrapassar do que os dias normais. Regra geral, estava ocupado nesses dias. A prestação do andar e a da moto assim o exigiam.

Há três meses que perdera o emprego. Os contactos de 10 anos na profissão haviam-lhe permitido fazer duas coisas até ao momento: manter as contas em dia e fumar cigarros a acompanhar whisky de malte, noite após noite. Isso e uma terceira coisa da qual não falava a ninguém: telenovelas.

Todas as noites, menos quando tinha de trabalhar, também fazia isso. Sabia de cor os enredos, cenários e banda sonora. Os dramas de Joana e Rogério. Os esquemas sofisticados mas antecipadamente fadados ao fracasso de Laura. O amor infeliz de Mauro com Luana. Sim, sabia tudo de cor.

O barulho da máquina de café interrompeu-lhe o fio dos pensamentos. Bebeu, deliciado, aquele café tão saudavelmente revigorante. Tinha um aroma forte e em simultâneo um paladar suave. E um fim de boca, ou lá como se dizia, absolutamente deslumbrante. Verificou o pacote e notou que não lhe sobrara mais do que um terço.

Era ainda uma das coisas que Matilde deixara para trás e estava quase no fim. Como eu, pensou, e arrumou-o cuidadosamente na prateleira onde guardava os cereais, o arroz e as massas.

Sentindo-se revigorado, foi-se movendo, devagar, deixando deslizar suavemente pelas pernas os boxers até ficarem esquecidos no chão. Parou, despiu a t-shirt e acabou por fazer dela uma bola que atirou com destreza para a cama enquanto se encaminhava para o quarto de banho.

Fez a barba, tomou um prolongado duche, lavou os dentes, penteou-se em frente ao espelho, cioso da imagem, aspergiu os sovacos com desodorizante e vestiu uma roupa de trazer por casa. Calçou os ténis e gritou:

– É sábado!..

Não gostava do trabalho que se vira forçado a fazer na noite anterior, mas não tivera alternativa, embora fosse um biscate que o envergonhava rendera-lhe suficiente dinheiro para se aguentar pelo menos mais umas três semanas.

Mais três semanas e depois, se nada mudasse com Matilde, beber whisky de malte e fumar cigarros até rebentar – reflectiu.

Lembrou-se que deixara a moto a quase dez minutos do apartamento. Fora uma precaução que lhe parecera inteligente mas que agora o aborrecia. Tinha sido realmente uma merda de trabalho.

A segunda chávena de café, embora fria ou talvez por isso mesmo, fez de imediato efeito e foi sentar-se na sanita. Por fim, aliviado, pegou num dos livros que tinha sempre à mão na casa de banho, procurou a página vincada e inteirou-se da leitura que deixara a meio numa das últimas vezes em que ali se sentara.

Era um livro de Paul Auster. Um livro dentro de um livro. Assim que começou a ler a ironia de se encontrar na mesma situação do herói principal atingiu-o como um murro no estômago. Auster descrevia o escritor sem inspiração que está na sanita a fazer o que ele estava, com um livro na mão, ponderando como o novelo da sua vida se embaraçara. Como a sua mulher o deixara e a sua vontade de escrever morrera.

É certo, não era nenhum escritor, não passava dum jornalista falhado e despedido, mas não deixava de ser irónico encontrar-se assim tão perto daquilo que um seu professor na faculdade catalogara de erro trágico narrativo.

O livro de Auster tinha tudo a ver consigo próprio. Para que realidade e ficção se fundissem numa só apenas lhe faltava que o telefone tocasse antes de se limpar e puxar as calças para cima.

Então, no quarto, com um ruído estridente que o deixou desconcertado, o telefone começou a retinir. Raios partam! – exclamou. Quem seria? Reflectiu que não era importante. O telefone continuava a tocar. Fosse quem fosse, que deixasse mensagem. Fez uma nota mental de que a partir desse dia só estaria disponível para atender telefones se lhe valesse um mês de trabalho, mais a prestação da moto, num só dia.

Achou que já fizera a sua parte. Dez anos a fazer a sua parte. A escarafunchar nas vidas alheias toda a trampa que fosse possível imaginar. Mais a mais hoje era sábado. Fizera a sua parte contribuindo activamente para a mecânica do dinheiro que dominava o mundo. Que se fossem todos foder, não tinha tempo para conversar.

O telefone tocou outra vez. E outra. Virou a página do livro, resoluto na sua decisão de se concentrar na leitura. Finalmente, o telefone silenciou-se.

Limpou-se, subiu as calças, puxou o autoclismo, mirou-se ao espelho e dispôs-se a continuar a leitura na cozinha. Serviu-se de mais uma chávena de café. E lia, descontraído, quase longe de si mesmo, quando o telefone de novo se fez ouvir.

Merda, pensou. Quem seria? Já era a segunda vez que a porcaria do telefone tocava. Tinha de ir buscar a moto e esteve para pegar no capacete, mas a curiosidade, um, dois, três toques, acabou por ser mais forte e levantou o auscultador num gesto impaciente.

– Sim?..
– Sou eu. Preciso que venhas cá.
– Olá menino, o que é que contas?
– Escuta. Miguel, não estou a gozar. Tens que me vir ajudar aqui à aldeia.
– Menino, o meu tempo, como tão bem sabes, é precioso; estava mesmo agora a sentar-me à secretária, a escrever uma peça sobre as baleias azuis da Antárctica. Sabes que as baleias azuis da...

Do outro lado, Jorge interrompeu-o bruscamente.

– Porra! Tens que cá vir, és meu amigo ou não?

A pergunta ficou suspensa no ar por uns breves segundos.

– Tenho contas para pagar meu, o mundo não revolve à volta desse teu umbigo prateado. Diz-me cá, o que é que se passa?

Sentiu do outro lado da linha uma hesitação que não conhecia no seu amigo dos tempos da faculdade e com quem nunca perdera o contacto, após tanto tempo. O sacana do Jorge.

– Miguel, não estou a gozar. Preciso que venhas cá agora. É sério. Um assunto muito sério mano.
– Ok. É bom que o seja mesmo, as baleias azuis... Estás na aldeia? Já foste ao banho?
– Sim. A água está morninha, um espectáculo. Não te demores. Isto é grave, Miguel, muito grave, e há dinheiro para ti se me ajudares a resolver isto.
– Dinheiro é sempre um problema puto, bem o sabes, mas gosto de te ouvir falar assim. Dentro de uma hora estou aí. Tens um calção de banho que me emprestes? Até lá, deixa-te estar e não faças nada que eu não fizesse.
– Não te demores, porra!

Miguel desligou, ponderou a situação por meia dúzia de instantes, olhou para o relógio e verificou que ainda não passava das quatro. Vestiu o casaco de couro, apanhou o capacete no corredor, abriu a porta da rua, inspirou o ar quente daquela tarde de Julho, bateu a porta nos gonzos e dirigiu-se para a beco estreito onde estacionara a moto na noite anterior.

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