Em dez capítulos, a meio caminho entre o conto e a novela policial, uma história de crime, traição e paixões violentas. A ser actualizada, capítulo a capítulo, de oito em oito dias. As vossas críticas, sugestões ou meros comentários são bem vindos.
Wednesday
Capítulo III
– Califa –
"Temos de ser cruéis. Temos de recuperar a consciência tranquila para sermos cruéis."
Adolfo Hitler, Anjo da Morte.
O homem deitado na cama estava a morrer. A definhar lenta e de forma inexorável para o único futuro que realmente nunca temera, nesta ou noutra vida, para onde enviara tantos homens, tantas vidas que espezinhara ao longo da caminhada que o conduzira até ali. Fazia calor e Califa sabia que era sábado pois a ementa do almoço consistira de peixe cozido com batatas. Peixe cozido com batatas que os cabrões da empresa de catering do hospital só se atreviam a servir aos sábados.
O sol, que penetrava pelas ripas das persianas, lembrava-o daquele outro sol africano, como se, por uma funesta ironia do destino, o sol agora regressasse para o final ajustes de contas com o homem que mais o odiava, ele próprio, capitão Braga Melo, Califa para os íntimos. Fechou os olhos e divagou: o capitão Califa, homem de negócios escusos a morrer numa cama de hospital por causa dos cilindros brancos merdosos cujos malefícios nunca lhe tinham roubado sequer dois pensamentos sérios de seguida...
Califa sorriu e pensou que a hora se aproximava. A hora do sol do meio dia de África com o mato e o seu paladar a morte e a animais putrefactos a pastar nos seus pesadelos suados. Ia morrer, sabia-o, há mais de seis meses, e os malditos dos pesadelos, nem agora, quando a hora se aproximava, o deixavam descansar em paz.
Ergueu a cana frágil que um dia fora o braço de um homem dito valente e tocou à campainha. Após uns minutos, a enfermeira entrou no quarto, reticente, como se o cheiro que o velho emanava fosse demasiado difícil de suportar; quase como se ela visse naquele corpo esmaecido o seu próprio futuro e não lhe fosse possível suportar a visão de si mesma, reflectida nos olhos de Califa.
Domitília sempre trabalhara como enfermeira e nunca se casara. Tinha uma vida feita a pulso, nos meandros esconsos do ofício de enfermagem, e por isso causava-lhe alguma perplexidade nunca saber como entrar naquele quarto, no quarto daquele homem que era um velho e um velhaco, mas que estava a morrer, e a morrer à sua guarda.
Não era bonita e tinha disso consciência. Todavia, o fantasma do homem desfalecido à sua frente botava-lhe todos os dias olhares conspícuos, cobiçosos. Na verdade, penetrar naquele quarto onde o tempo se confundia com a eternidade, por mais de uma vez a deixara embaraçada. Encontrar-se a sós, naquele silêncio, com o velho acamado, perturbava-a, sem que soubesse explicar porquê. Um velho rico, ainda por cima, ocorreu-lhe, antes de dominar o seu ódio crescente e de lhe dizer no tom impessoal que 25 anos de profissão haviam conferido ao timbre seco da sua voz:
–Tem uma visita, um cavalheiro.
Califa esperava aquela visita já há dois dias. Anos e anos à escuta no mato e mais tarde na companhia onde fizera a fortuna haviam-lhe ensinado a aguardar sempre o pior de todos os cenários possíveis e a desfrutar ao máximo de todas as situações imagináveis; fossem elas boas ou fossem más.
Sabia que o homem que o procurava lhe trazia notícias agradáveis. Notícias que o despertavam ainda uma última vez para o grande jogo da vida e da morte. A última parada que apostava contra o destino. Um jogo onde se decidia o futuro da sua espécie.
Mirou a enfermeira Domitília e respondeu-lhe que era pena, não esperava visitas e apenas tocara porque necessitava de efectuar uma necessidade fisiológica e não encontrara nenhum urinol pendurado na barra da cama. Descaiu os lençóis e perguntou:
– Se a enfermeira fosse tão simpática ao ponto de?..
Domitília pensou em chamar uma auxiliar. Não era o seu dever. Não fazia parte das suas atribuições. Não tinha qualquer obrigação em por aquele homem a mijar. Esteve para abrir a boca e dizer-lhe isso de viva voz mas não o fez. Sem saber porquê, sentiu-se irresistivelmente compelida a entrar no quarto de banho, a procurar um urinol lavado e a estendê-lo, sobre a cama, vagarosamente, tentadora, em direcção à mão trémula de Califa. Aquela mão descarnada que morria com o corpo como se fosse a cauda dum réptil: ainda viva mesmo após a morte anunciada do corpo, pensou Domitília, sentindo uma urgência terrível em se deitar ao lado de Califa na cama.
Conteve-se e o urinol pairou suspenso no ar, sobre o corpo dele, como se o farrapo de homem deitado a rir-se com os olhos soubesse que ela o desejava com todas as forças do seu ser.
- Uma visita? Califa afastou o urinol, bruscamente, ordenando-lhe que o pendurasse na barra da cama.
– Uma visita merece as honras do convento, não lhe parece, enfermeira Domitília?
Dizia-lhe isso e ao mesmo tempo afagava-lhe o braço, ternamente. Domitília sentiu-se enrubescer, mas deixou-o continuar, concedeu que o tocasse com um gesto de indiferença, aquele homem que não era um homem como os outros. Baixou-se e ao pendurar o urinol sentiu a mão que a pesquisava, sabedora, acariciando-a nas suas partes íntimas. Ferida, deu um pulo e afastou-se, nervosa.
Califa, com uma voz que vinha de longe, rouca, gelada, riu-se e disse-lhe:
– Um dia destes, caso-me contigo, Domitília, acho que te amo, doçura...
Sentiu-se vexada mas a resposta que tivera pronta embargou-se-lhe e engoliu em seco.
–Tem uma visita, vai recebê-la, ou devo mandá-la embora?
– Manda entrar minha linda, e sai, vai-te daqui, quando precisar chamo-te.
Domitília saiu com o coração a bater desordenadamente para o corredor e viu o outro homem, o que vinha visitar Califa. Um cigano de bigodes e fato azul escuro com um ar esquisito e olhos azuis que incutiam um respeito quase sobrenatural.
Pode entrar, mas não o mace muito, O Dr. Braga Melo não deve esforçar-se demasiado.
O cigano acenou em concordância, como se Domitília não existisse, como se ela fosse um mero acessório dispensável e entrou sem fazer barulho dentro do quarto.
– Olá Califa.
– Olá Olívio, como estamos de presunto?
– Está tudo a correr como planeaste Califa, o primeiro já está no depósito e o próximo na bagageira.
– Ninguém percebeu nada?
– Nada Califa, tudo correu como planeado.
– E o próximo, já trataste disso?
– Sim Califa, está na minha garagem, à espera da reacção do puto, mas, Califa, não estamos a exagerar? É o miúdo, merda!
– Escuta, Olívio, já não te lembras como era lá no mato? Esqueceste, cabo? Esqueceste?..
– Não esqueci meu capitão – e, mesmo sem o desejar, Olívio perfilou-se frente ao cadáver adiado que lhe salvara a vida por mais do que uma vez. Califa era ainda um homem pelo qual seria capaz de ir até ao fim do mundo, e voltar, se ele lho ordenasse.
– Tudo está a correr como planeaste Califa, não te deixarei ficar mal. Já o miúdo, não sei.
– Mas sei eu Olívio. Anda, estás com medo, agora?
– Não Califa, não tenho medo.
– Óptimo. Volta lá e telefona para cá a dizer como se safa o miúdo, sempre quero ver se é verdade que o pai nasceu com um berloque na pixota, ou se o puto tem mais dentro dele do que o que pensamos.
– E o terceiro presunto, Califa?
– Vai ver primeiro, depois diz como ele se está a safar e logo vemos. Vai.
Olívio sentiu que o velho estava no limite das suas forças. Assentiu com a cabeça e saiu do quarto para dar imediatamente de caras com a enfermeira velha e feia que mais parecia um cão de guarda do que gente. Cumprimentou-a, procurou a saída do hospital e reflectiu que não lhe agradava nada aquilo em que se tornara e que ainda lhe agradava menos a missão que Califa o incumbira de cumprir.
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